O que a ciência descobriu sobre GLP-1 e pressão arterial
Agora chegamos ao ponto que interessa: o que os estudos dizem sobre o efeito do GLP-1 na pressão alta?
Os ensaios clínicos com semaglutida trouxeram resultados impressionantes. Na pesquisa chamada SUSTAIN-6, pacientes com diabetes tipo 2 que usaram semaglutida apresentaram reduções significativas na pressão arterial sistólica. A média ficou em torno de 5 a 7 mmHg a menos, um valor clinicamente relevante quando se sabe que cada redução de 5 mmHg no risco de AVC cai em aproximadamente 10 por cento.
Mas o mais interessante foi perceber que essa redução acontecia mesmo antes de o paciente perder peso expressivo. Em outras palavras, o GLP-1 estava a actuar directamente no sistema cardiovascular, e não apenas como consequência secundária da perda de gordura.
Os mecanismos propostos são vários. Primeiro, há um efeito anti-inflamatório directo. A inflamação crónica de baixo grau está associada à disfunção endotelial, que é basicamente quando as paredes dos vasos sanguíneos perdem a capacidade de relaxar adequadamente. Ao reduzir marcadores inflamatórios como a proteína C-reativa, o GLP-1 pode melhorar a função dos vasos.
Segundo, estudos em animais sugerem que a semaglutida pode actuar directamente nos neurónios do centro cardiovascular no cérebro, reduzindo a actividade do sistema nervoso simpático, aquele que acelera o coração e contrai os vasos.
Terceiro, há impacto na retenção de sódio. Alguns dados indicam que o GLP-1 aumenta a excreção de sódio pela urina, o que ajuda a reduzir o volume de líquido no corpo e, consequentemente, a pressão sobre as paredes das artérias.
O ensaio SELECT, publicado em 2023, foi um marco. Ele acompanhou mais de 17 mil adultos com obesidade ou sobrepeso e doença cardiovascular prévia, mas sem diabetes. Metade recebeu semaglutida 2,4 mg por semana (a dose do Wegovy) e a outra metade recebeu placebo. Os resultados foram notáveis: além da perda de peso significativa, o grupo da semaglutida teve uma redução de 20 por cento no risco de eventos cardiovasculares graves, como ataque cardíaco e AVC. Embora o estudo não tenha sido desenhado especificamente para medir pressão arterial, as análises de subgrupo confirmaram reduções importantes nos valores pressóricos.
Com o Mounjaro (tirzepatida), os dados do programa SURPASS apontam na mesma direcção. Pacientes tratados com tirzepatida apresentaram reduções na pressão arterial que variaram de 6 a 10 mmHg na sistólica, dependendo da dose e da duração do tratamento.